Armas brancas

O que expor? Para quem? Por quê?

Brasil também é engendrado pela violência, pelo estupro, sequestro, assalto e genocídio das populações negras e indígenas escravizadas. Esses crimes foram perpetrados pela ação do colonialismo resultante das ideologias europeias cristãs e capitalistas que ainda hoje regem grande parte do pensamento ocidental e do pensamento brasileiro.

Maria Helena - Diretora do Museu

Nesse sentido, a história do Museu do Recôncavo, assim como parte da história dessa região que se convencionou chamar Recôncavo, é composta e regida por um embate de forças: por um lado, a resistência dos povos nativos do que chamamos Brasil, os indígenas que, junto aos povos africanos sequestrados e escravizados trazidos para servir de mão de obra, instituíram e compartilharam uma força política, filosófica, cultural e religiosa monumental. Graças a essa força, podemos hoje usufruir de alguns rituais, filosofias e perspectivas que favorecem o bem-estar físico, espiritual e mental dos descendentes das populações negras e indígenas no Brasil.

Ou seja, esses povos sustentam o que há de mais belo, íntegro, rico e humano nesta nação. Aqui a palavra "humano" é muito importante. Isso porque um dos norteadores do processo escravocrata foi justamente a bula papal publicada em 18 de junho de 1452 pelo Papa Nicolau V, na qual Sua Santidade se referia à suposta ausência de alma nos corpos pretos, mouros etc.

Michel de Montaigne (1533-1592) foi um filósofo e escritor francês que ficou conhecido mundialmente por ser o precursor do estilo literário conhecido como ensaio. Reflexivo sobre a categorização sofrida pelos povos indígenas do Brasil, Montaigne escreveu o texto "Dos canibais", no qual afirma

"Não vejo nada de selvagem ou bárbaro naquele país pelo que tenho ouvido, a não ser que chamemos de bárbaro o que quer que não se adapte aos nossos costumes. Na verdade, parece que não temos outro parâmetro de verdade e razão que não os exemplos e idéias das opiniões e costumes do país em que vivemos. Aqui estão sempre a religião perfeita, o governo perfeito, a maneira perfeita e consumada de todas as coisas. Esses homens são selvagens do mesmo modo que chamamos de selvagens os frutos que a natureza produz espontaneamente e em seu curso normal; quando na verdade são os que alteramos por nossos artifícios e desviamos da ordem natural que deveríamos chamar de selvagens".

Comparando a antropofagia com uma estratégia portuguesa de tortura e homicídio utilizada contra um criminoso de nome Catena, Montaigne continua:

"Acho que há mais barbaridade em comer um homem vivo do que morto, em despedaçar e torturar na roda um corpo ainda cheio de sensibilidade, em assá-lo devagar e dá-lo aos cachorros e porcos para morder e mutilar (como não só lemos a respeito, mas vimos em tempos recentes, não entre antigos inimigos, mas entre vizinhos e concidadãos e, o que é pior, sob o pretexto de devoção e religião), do que em assá-lo e comê-lo depois de morto".

Assim, o autor reflete sobre a invasão das terras que hoje conhecemos como Brasil e sobre as falácias das narrativas europeias, brancas e racistas construídas a partir da invasão. Montaigne questiona o lugar da narrativa que constrói sobre os corpos racializados a ideia de selvageria e aponta para as práticas de selvageria da branquitude através, por exemplo, de técnicas de tortura.

Em 1950, cinco anos após o fim da Segunda Guerra Mundial e aproximadamente quatro séculos depois da morte de Montaigne, o autor martinicano Aimé Césaire (1913-2008) publicou "Discurso sobre o colonialismo". Neste livro, o autor, a partir de uma análise histórica, destrincha algumas vertentes do pensamento branco, ocidental, europeu e capitalista para alertar sobre a inversão de papéis e as projeções que o sistema colonial implantou para se defender e se sustentar. Numa de suas reflexões, o autor afirma:

"a colonização desumaniza, repito, mesmo o homem mais civilizado; que a acção colonial, a empresa colonial, a conquista colonial, fundada sobre o desprezo pelo homem indígena e justificada por esse desprezo, tende, inevitavelmente, a modificar quem a empreende; que o colonizador, para se dar boa consciência se habitua a ver no outro o animal, se exercita a tratá-lo como animal, tende objetivamente a transformar-se, ele próprio, em animal".

Césaire, em seu texto, cita Carl Siger (1877-1945) que, em seu "Essai sur la

Colonisation", atesta a descarga de violência que a empresa colonial praticou em suas colônias. Siger afirma:

"Os países novos constituem um vasto campo aberto às actividades individuais, violentas, que nas metrópoles colidiriam com certos preconceitos, com uma concepção ajuizada e regrada da vida, e que nas colónias podem desenvolver-se mais livremente e, por conseguinte, afirmar melhor o seu valor. Assim, as colónias podem, até certo ponto, servir de válvula de segurança da sociedade moderna. Se esta utilidade fosse a única seria imensa".

Assim, entendemos que os assaltantes, selvagens, violentadores e estupradores são, na verdade, agentes da empresa colonial que projetaram e empregaram sua tendência à violência desumana contra os corpos negros e indígenas escravizados e torturados nas colônias. Nesse sentido, a exposição aqui presente tem como objetivo e deve cumprir-se como uma exposição de ferramentas da branquitude e do colonialismo. Foram ferramentas engendradas, construídas, pensadas e utilizadas por corpos e pensamentos racistas, brancos não tão distintos daqueles que habitaram esta casa. A exposição desses objetos deve causar uma vergonha educativa, da qual resulte a necessidade de transformação por parte da branquitude.

Esses instrumentos de tortura manifestam a vergonha do que ocorreu para que as pessoas brancas aqui presentes se identifiquem como agentes do que deve ocorrer no presente e no futuro. Isto é, um outro posicionamento político capaz de fazer do Recôncavo, de Salvador, da Bahia e do Brasil espaços nos sejam praticadas reparações históricas.

Deve-se buscar o desmantelamento das micro e macroestruturas de poder construídas para favorecer econômica, política, espiritual, filosófica e simbolicamente a branquitude. Isto é, o possível desmantelamento da empresa colonial e seus resquícios e desdobramentos.

Existem inúmeros debates sobre a exposição ou não de ferramentas de tortura em museus e acervos. O Museu Afro Brasil Emanuel Araújo leva o nome do seu fundador, genial artista, pensador, curador e gestor baiano nascido em Santo Amaro, Recôncavo da Bahia, em 1940. O referido museu está agora sob a direção de outro baiano: Hélio Menezes, antropólogo, internacionalista e curador de importantes exposições como "Carolina Maria de Jesus: um Brasil para os brasileiros" (Instituto Moreira Sales, 2021), "Histórias Afro-Atlânticas" (MASP/Instituto Tomie Ohtake - 2018) e a 35ª Bienal de São Paulo (2023). A revista ArtReview indicou, em 2021, Hélio Menezes como uma das 100 pessoas mais importantes do mundo da arte contemporânea. Diferente de Araújo, Menezes decidiu por não expor os objetos de tortura presentes na coleção do Museu Afro Brasil. Em entrevista a Mariana Tavares para o jornal Valor, de São Paulo, em outubro de 2024, Menezes apresentou a seguinte justificativa para a sua decisão:

"Reativar o lugar do trauma como porta de entrada para a reflexão é uma estratégia presente numa série de instituições. Nesses 20 anos, serviu para uma dimensão pedagógica. Mas a pergunta de fundo é: como falar da violência sem reencená-la?"

Como contraproposta, o atual Diretor do Museu Afro Brasil Emanuel Araújo buscará "abrir espaço literal para outras narrativas" com produções de artistas negros e negras que estão produzindo na contemporaneidade formulações diversas para esses traumas. O Museu do Recôncavo certamente deverá apresentar também produções de artistas racializados, negros e indígenas, que tenham sentidos múltiplos.

Em 2016, Tiago Gualberto (1983), artista visual e então pesquisador no Museu Afro Brasil, escreveu o breve texto "Corrente de Castigo", segundo consta no resumo do mesmo, "elaborado para compor a justificativa de compra de uma corrente de castigo, objeto em metal fundido datado como sendo do século XIX e utilizado como ferramenta contra a população negra escravizada no Brasil". A referida corrente teria origem em Maragogipe, cidade do Recôncavo da Bahia. Ao fim da sua justificativa, Gualberto afirma que

"estes instrumentos constituem uma espécie de testemunho da violência e do aparato tecnológico e simbólico utilizado na manutenção da escravidão. (...) A ausência destas peças ao alcance do público do museu poderia ser compreendida como mais um artifício do esquecimento e apagamento desta ferida na memória do povo brasileiro (...)"

A escritora, pensadora e artista francesa Françoise Vergès (1952), no livro "Decolonizar um museu - Programa de Desordem Absoluta" (2023), indica as contradições da noção de museu universal como sendo portador de uma narrativa linear e total da História. Nesse sentido, a autora afirma:

"Como pretexto de que toda história tem de ser contada, representada no museu para existir, aceitamos que nossas memórias, nossos objetos, nossos sonhos, nossas raivas sejam submetidos a códigos que os pacificam. O que não quer dizer que artistas e coletivos não conseguiram realizar ações anticoloniais, mas sim que temos de estar vigilantes contra a pacificação e a comoditização dessas ações e levá-las para outros lugares".

Janaina Cardoso de Mello, Professora Doutora da Universidade Federal de Sergipe, publicou o artigo "A representação social da escravidão nos museus brasileiros: interfaces entre a Museologia e a História" em 2013. Nele, a autora afirma:

"Os produtores das narrativas expográficas não detém o poder soberano na concepção de mensagens fechadas, que serão sempre decodificadas de maneira uniforme por todos os receptores; nem tais discursos se alicerçam em pressupostos comuns, muitas vezes de base ideológica, capazes de conduzir a interpretação. Todavia, deve-se levar em consideração que é através das relações de fronteira, das situações de interação, que os discursos sociais são construídos e apropriados"

A crítica, curadora, professora universitária e pesquisadora Priscila Arantes, no seu texto "O arquivo como dispositivo curatorial", publicado no livro "Histórias das Exposições - Casos Exemplares (2023), aponta que existe, sim, uma série de exposições e artistas que se debruçaram sobre e reinterpretam arquivos. E aqui, peço licença para entender "arquivos" como objetos, documentos e demais fragmentos de um passado recente ou longínquo. No referido texto, Arantes afirma:

"Essa febre de arquivo ou 'arquivomania' tem relação intrínseca com a chamada 'crise' da história ou, mais particularmente, com o anseio e a necessidade de escritura de 'outras' histórias para além daquelas ditadas pelo pensamento hegemônico. Nessa perspectiva, pensadores como Walter Benjamin que propõe alternativas para outras histórias narradas na contramão da história dita oficial. Em Sobre o Conceito de História, Benjamin (1993) aponta para a necessidade de se escrever uma história a contrapelo, que, contrariamente às narrativas hegemônicas e oficiais, incorpora exatamente tudo aquilo que é deixado para trás".

Não há consenso com relação à exposição destes objetos de tortura. E não deve haver. Esses objetos geram desconforto e reativam traumas. O que nós podemos fazer é pensá-los como provocadores de desconforto nos corpos e pensamentos racistas. Afinal, eles construíram e utilizaram as ferramentas aqui expostas. É sobre eles que esse mal-estar deve repousar. Tal como o Museu do Holocausto deve incomodar as reminiscências do pensamento nazista e fazer-nos pensar sobre a importância de desmantelar suas estruturas.

João Victor Guimarães

Crítico de Arte, curador e pesquisador verão de dois mil e vinte e cinco

A minha única consolação é que as colonizações passam, as nações dormitam apenas um momento e os povos ficam."

Aimé Césaire, em "Discurso sobre o colonialismo"